A VISITA DO INIMIGO CORONA

 

CORONAVIRUS 2

Como me dirigir a uma criatura, que mesmo sem  convite,  pode me visitar? Como te chamar? Senhor, senhora, excelência, sei lá…

Eu,  conectada, assustada, desconfiada… Imaginando-te como uma sombra. Estaria na minha boca ou nas pregas das roupas? No cantinho sala ou na umidade das toalhas? Circulando nas minhas veias ou dentro das meias? No fundo das panelas ou pulando as janelas?

Eu, perambulado pela casa, lembrando-me de piadas,  cobrindo-me com capas. Recontando os amigos,  sentindo-me de castigo. Com saudade do cinema, esperando telefonemas. Querendo ter asas,  enquanto na calçada,  alguém deseja morada.

Inimigo  impalpável, difícil de atacar! Mas se estivesse visível, meu caro,  com as forças que tenho, iria te cegar!  Mastigar-te inteiro; engolir-te devagarzinho. Fazer-te lastimar e uivar de dor,  expulsá-lo com  a massa podre do  meu cocô. Mataria você antes da hora, desdenharia da sua  frota,  porque não aceito  derrota! 

Mas um dia irá embora,  e  alguém contará sua história: A fábula de um vírus louco, que estapeou os donos do mundo,  que pensavam ser tudo, mas nunca deram ouvidos a felicidade. Agarraram-se,  então,   ao vazio  estúpido da vaidade.

Donos e inquilinos de mansões, altares e puxadinhos, de  tanto falar de amor, não sentiram  o prazer de amar. Projetaram milhares de sonhos,  mas jamais souberam agregar.  E para  entender o peso de um  abraço,  foi preciso se isolar. 

ANA TEIXEIRA  –  Março, 2020


6 comentários sobre “A VISITA DO INIMIGO CORONA

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