A BONECA PRETA

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Viver nesta desinteligência tem sido um desafio inesgotável, infinito…

Fui a uma loja de brinquedos com objetivo comprar um presente de aniversário, mas entrei num confronto,  que se transformou em batalha.

A loja estava vazia, pois o shopping acabara de abrir, portanto, o segurança, estava bem a vontade para me seguir a cada passo. É impossível explicar, o que isto significa e o constrangimento detonador que isto provoca.  Só quem é preto entende.

Resolvi andar rapidamente pelos corredores em zigue-zague. O segurança enlouqueceu. Nem tentava mais disfarçar,  que estava no meu encalço. Quando cheguei no último corredor, joguei no chão algumas caixas que estavam empilhadas. Uma delas estava aberta,  e as pecinhas se espalharam para todo lado. Com essa eu não contava… Imediatamente surgiram vários funcionários para arrumar a confusão.

Enquanto isso, dirigi-me ao segurança. Disse-lhe em voz baixa e compassada: _Se você não parar de me seguir, colocarei essa loja abaixo. Você me entendeu? Comprarei o que preciso,  e só sairei daqui na hora que euuu quiser! Não sou tola a ponto de pensar,  que câmeras ocultas também estão me observando, mas você não está oculto,  e a sua atitude racista me fere… Você foi orientado para agir assim, mas também precisa saber como me sinto. Talvez,  isso  te ajude a pensar num outro emprego ou te dê a oportunidade de repensar  as ordens que recebe.

Confesso, que não terminei a fala compassadamente, pois estava enfurecida. Embora tenha dito isso ao segurança, não me sentia forte como gostaria. Sentia-me,  mais uma vez indignada e humilhada. Mas em nome desses sentimentos precisava me manifestar para não enfartar ou renunciar de vez.

Tentando cumprir o meu objetivo, procurei uma vendedora, e solicitei que me apontasse onde estavam os brinquedos para crianças de um ano.  Então, ela me responde com uma pergunta:_Menino ou menina?

Com muita preguiça, respirei  fundo umas três vezes, e repeti: _Onde estão os BRIN-QUE-DOS para crianças de um ano?  Ela me respondeu: _ Entendi. É que nunca parei para pensar. Brinquedo é brinquedo, né? Ela riu de si mesma.

Resolvi não deixar o meu dinheiro naquela loja. Chamei o gerente para conversar sobre os dois ocorridos. Enquanto o aguardava,  no  corredor das bonecas, uma menina de uns três ou quatro anos, chorava e puxava a mãe pela blusa. A mãe, que por sinal estava muito irritada, segurava uma boneca: Um bebê branco, careca e com uma chupeta na boca.  A menina num choro sentido,  resmungava: _ Eu quero a boneca preta! Mamãe,  eu quero a preta… (parecia até o menino da propaganda do brócolis).

Parei, pois precisava entender o que acontecia. A história: A menina queria uma boneca negra, mas a mãe queria,  que a menina levasse a boneca branca. Simples, assim? Não pra mim.

Sim! Mais um dia acordei para guerrear! Lembrei-me da última coluna do Alexandre Schneider (Sob a névoa da guerra), onde ele diz ao final da coluna: “Em uma democracia, o perigo não é a revolta, mas o silêncio.”

Fingi que também procurava uma boneca, mas estava atenta ao desenrolar da cena. Até que a mãe espremeu a menina num canto, pegou a boneca branca,  e disse: _Não estamos na sua escola e não sou a sua professora! Em casa você brinca com essa aqui! Virou as costas,  e seguiu em direção ao caixa. Largou a criança ali. Chorava, pois  não entendia, por que na escola,   brincava com bonecas negras, mas não podia levar essa mesma boneca para casa.

Pensei em deixar pra lá. Sinceramente, estava com um nó enorme na garganta, mas,  não podia desamparar aquela menina. Tinha que ser rápida! Como o adulto é complicado, inflexível e burro, resolvi agir para que a menina entendesse.  Entreguei-lhe a boneca negra. Cheguei bem pertinho do ouvido dela,  e disse: _Se  joga no chão e chore. Grite bastante,  que a mamãe compra a boneca que você quer! Vai!

Ela não pensou duas vezes. Não só se jogou no chão,  como babava, e arrastava-se pela loja. A menina parecia possuída.  A mãe voltou assustada, e eu saí de fininho… Fui falar com o gerente. Um dia conto tudo sobre essa conversa.

Encontrei novamente mãe e filha na saída da loja. Eu, sem o que fui comprar,  e a garotinha com os olhos vermelhos,  mas com a guerra vencida.

Não acabou por aí, o  inesperado estava por vir… Para me despedir, olhei para a menina e dei uma piscadinha. Ela nem pestanejou! Jogou-se no chão de novo e começou a chorar e gritar: _Eu quero a boneca preta! Eu quero a boneca preta!

Eu e a mãe da criança ali,  sem saber o que fazer, sem saber o que dizer. Mas talvez seja um aviso: As pessoas podem até concordar  com você,  e livrarem-se de problemas maiores,  mas na primeira oportunidade,  elas voltarão às mesmas práticas. Então, continue gritando! Missão cumprida com sucesso? Não,  infelizmente, a guerra continua.

Para completar a história que vivi ontem, cito o livro INOVAÇÃO ANCESTRAL DE MULHERES NEGRAS – Táticas políticas do cotidiano: “Eu tenho o poder de fala. Um mundo pode se construir a partir da minha fala. Eu luto para que um mundo,  um velho mundo se desconstrua com a minha fala” – Maitê Freitas.

Por mais bonec@s pret@s!

Ana Teixeira – Dezembro, 2019


3 comentários sobre “A BONECA PRETA

  1. Minha filha hoje com sete anos (não tão afeita a bonecas mais) sempre teve uma boneca preta para brincar (em casa) e para levar para a escola). Como ela é branca e a maioria das colegas de escola também, arrancar ranços racistas pelas raízes me parece a melhor maneira de educar…

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  2. Oi Ana!
    Paz e bem!

    Aplausos pra você.
    Infelizmente, a cada situação desagradável de racismo nos deixa profundamente triste!
    É absurdo que ainda tenhamos que passar por tantos constrangimentos referentes a esses acontecimentos.
    Abordar as corriqueiras histórias do cotidiano para alertar sobre o “respeito e a igualdade” são de suma importância para os ignóbils.
    Beijos.

    Curtido por 1 pessoa

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