HISTÓRIAS DE UBER – BOA APARÊNCIA

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GUARDANAPO DO RESTAURANTE – PRIMEIROS REGISTROS

Conferi o rosto do motorista e comparei com a foto do celular. Sim, é a mesma pessoa. Seguimos. Depois de dois minutos se desfez o gelo.

Ele começa:
_ Conheço o local! Chegaremos em 20 minutos. Está bom para senhora? Pqp, pensei. Agora até o cara do UBER me chama de senhora. Não está fácil…
Decepcionada, respondi:
_Sim, está ótimo. O senhor é da região?
_ Moro perto de onde peguei a senhora, estava saindo de casa quando ouvi a chamada. Pqp três vezes, esse “SENHORA” acaba com o meu humor.
Ele continua na deselegância:
_ Gosto muito daquele bairro, dona Ana. Eu nunca vou para muito longe. Tenho medo da violência. Trabalho só até às 2 h da manhã.
Procuramo-nos ao mesmo tempo pelo retrovisor. Neste momento, percebi que a conversa tendia a azedar.
Ele foi pelas bordas até o ponto da curiosidade:
_ A senhora mora lá mesmo? Preferi não responder, e deixá-lo prosseguir com as pérolas do dia.
Ele foi adiante:
_ A violência está demais, por isso, que só pego pessoas de boa aparência. Gente com cara de bandido, eu não pego não!
Bem, tinha várias possibilidades neste momento, mas iria me encontrar com uma amiga muito querida, e não pretendia chegar ao local toda destroçada ou quem sabe nem chegar, por conta do possível capotamento do carro. Como sou sempre 89% razão, decidi agir com as palavras.
_ Então quer dizer, que se a pessoa não tiver boa aparência ou tiver cara de bandido, o senhor deixa o cliente esperando ou manobra o carro e vai embora?
Ele me responde na defensiva:
_ Não tenho culpa se a pessoa não tem uma boa aparência.
_Senhor XXXX, responda-me da maneira que conseguir. Como é uma pessoa com boa aparência e como é uma pessoa com cara de bandido? Ele sorriu, apontou um rapaz que estava na calçada, e disse:
_Está vendo aquele moço? Então, ele eu não pego! Olha a cara de ban… ban… pobre que ele tem!
Neste momento eu percebi nitidamente, que se tratava de um bolsominion geneticamente modificado e encorajado pelos resultados das urnas. Do tipo pobre que pensa que é rico, e pelo fato de ser branco, sente-se a vontade para dizer que tem boa aparência. Se duvidar tem uma arminha na cintura e sonha ser amigo de Donald Trump.
Cheguei a pensar, que provocar o capotamento daquele carro valeria a pena, mas os meus 89% razão me rebocaram para o eixo (a indignação, a frustração e a ira faziam meu corpo pesar mais de cem quilos). Decidi não desistir de mim. Decidi não desistir também daquele moço que estava na calçada, provavelmente depois de oito, nove, doze horas de trabalho.
_Senhor XXXX, numa coisa está certo, a pobreza tem cara mesmo. Quase sempre a cara dela está num rosto negro. Essa herança é real e cruel. É uma dívida, que precisa ser paga. O senhor mesmo está me dizendo, que aquele rapaz do outro lado da calçada tem cara de pobre e bandido, porque é negro, porém o senhor não o conhece para concluir tal coisa. O que o faz pensar assim é o seu preconceito, e é exatamente isso, que precisamos destruir no pensamento das pessoas. O senhor não atende a chamada do UBER, o outro não nos emprega… Como teremos oportunidades iguais desta forma?
Ele ficou mudo. Continuei:
_Gostaria que o senhor parasse o carro. Ele falou, finalmente:
_A viagem não terminou… Quero pedir desculpas. Estou envergonhado.
_Desculpas não aceitas! Mude de postura. Quem sabe…
Já estava na calçada, voltei:
_Votou em quem para Presidente?
Ele responde no susto:
_No Bolsonaro, mas estou arrependido.
Conclui a viagem com outro UBER. Só disse boa noite e obrigada ao novo motorista.
O encontro com a amiga? Foi maravilhoso!

Ana Teixeira – Setembro, 2019


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