QUARENTA GRAUS DE SERTÃO-Forty degrees of dryness

O asfalto vai cortando  a terra seca e judiada pelo sol…

Não aprendemos a semear, não ousamos cuidar e não saberemos colher, portanto jamais conjugaremos  os verbos dividir,  contemplar,  resplandecer…

Linhas de trens abandonadas e instaladas fora do lugar, revelam o quanto somos absurdos  e quanto fazemos mal uns aos outros. Talvez tenhamos que nascer de novo, juntos, para reparar tanta anarquia acumulada.

Animais atravessam a pista que fora feita apenas para os carros.  Alguém esqueceu de alguém ou foi impressão minha? Carnes, penas e pelos  são esmagados impiedosamente, e outros, outros e outros bichos são afugentados pelos sons dos motores ou busca  de sombras que não existem mais.

Nesta paisagem  pintada de marrom desbotado,  a natureza tenta dar o último gemido para salvar sua sina,  vítima de tantas cobiças,  ambições e burrices de governos inoperantes.

Vez ou outra, surge uma massa de  arvoredos,  que disfarça nossa culpa descarada. Arvoredos sortudos ou guerreiros,  não sei… Galhos solitários…Solidários às aves que não têm para onde ir. Suas raízes  puxam para si o resto de umidade  da terra esturricada para escapar das pancadas do sol.

Açudes, jumentos e urubus sugam cegos  o que resta…da água, da morte, de nós…

Os cactus são heróis estáticos, quase petrificados na sua missão de resistir.  Permanecem respirando  e dão pontadas de vida pelo caminho. Caminho que é nosso, mas todos sabemos,  que aquilo que sangra,  nunca é de ninguém.

Pequenas elevações montanhosas estão cobertas por  plantas nanicas e depiladas, que derretem aos poucos neste  caldeirão que transborda a  quase quarenta graus.

Meu corpo está a quarenta graus… estirado no asfalto que transpira em chamas, em meio a brisa do sertão.

Ninguém deveria morrer sem antes conhecer a beleza do sertão nordestino.

Patos, PB

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34 comentários sobre “QUARENTA GRAUS DE SERTÃO-Forty degrees of dryness

  1. Tellement de beautés à découvrir avant de mourir, hélas !
    Je ne comprends pas tout, mais je sens la poésie de ce texte 🙂
    (j’espère que tu parles français, comme tu passes sur mon blog je me dis que oui… Je suis encore bien incapable de m’exprimer en portugais !)

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  2. Boa tarde, Ana.
    Sou visita de primeira vez. Estou deste lado do Atlântico. O seu texto é muito sensorial, agradou-me bastante. Uma vez que é minha seguidora, retribuo com muito gosto. Os seus posts passarão a fazer parte do meus “desabafos em rodapé” a partir de agora.
    Bom domingo,
    Mia

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  3. Eu que moro nessa região posso dizer que você pintou uma bela imagem da realidade da flora e da fauna daqui. Vemos esqueletos empoeirados e buracos por onde riachos passavam. É uma tristeza, até o famoso umbu, que uma vez por ano íamos colher para fazer doces e sorvetes, hoje só se encontra nos locais mais hostis, onde poucos humanos ousam pisar.

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