DO BREVE CAOS À BRISA-From brief chaos to breeze

Bateram a minha porta, estava sozinha, pensava em tudo que poderia ter sido diferente, mas mesmo presa a esses pensamentos abri a porta devagar, tentando adivinhar quem poderia estar do outro lado, talvez o vizinho, o carteiro ou entrega sem aviso. Mas não era nada, não era ninguém. Na realidade penso que nem bateram na porta, quem sabe o vento tenha dado essa impressão…

Sentei-me novamente e aguardei. Tinha esperança que alguém pudesse chegar de maneira silenciosa e quem sabe, num só abraço pudesse dizer a saudade que tivera de mim.

Esperei por longo tempo, fitando em direção a porta segundo a segundo, mas o vento não retornou para dar notícias.

Olhando pela janela apenas o trânsito dava movimento as ruas, os carros piscavam com faróis brilhantes, eu tinha a impressão que acendiam tentando marcar um encontro. O ar estava frio, o céu cinzento e estático, parecia cansado e cheio de dor. Tanta gente, mas não conhecia ninguém e ninguém me conhecia…

Pensava que crescer exigiria de mim vários dons e que fosse obrigada a encontrar saídas com finais felizes e inteligentes, onde pudesse brindar a vida sentada num sofá vermelho entre amigos, canções e flores naturais.

Para quem passara por todas as esquisitices dos meus anos, considerava estar pronta para saber qualquer coisa sobre o que é viver.

Quem melhor que eu poderia decifrar vozes entrelaçadas num mesmo instante? Entender o começo e o fim de tudo e ser capaz de estender qualquer coisa que pareça incompleta e sem força?

Ninguém melhor que eu para reconhecer vozes aflitas, afônicas, disfônicas, porque a vida já se foi tão distante, que nada passaria desapercebido ou longe dos meus olhos. Sentia-me preparada para o futuro!

Mas sob esse céu, vejo que o mundo não é bem assim, vejo que ele precisa, mas não se ocupa só de mim, não sou suficiente para completá-lo, o mundo é de muita gente, que é quente e cheia de nós.

Neste mundo as sombras são disputadas com muitas coisas, e hoje descrevo medos, que nunca tive antes de crescer…

Pensando bem, não me sinto assim tão preparada, fui indiferente a tudo que passou ao meu lado repetidas vezes, e nunca estive atenta. Agora é preciso prestar contas e justificar a minha desatenção.

Vendo o mundo aqui de cima, percorro os olhos num ritmo que enverga o tempo, e nesse tic-tac inquieto cruzo com mulheres turbinadas, bicicletas estacionadas, casas enlatadas, crianças mal-educadas, mães enlutadas, pipocas temperadas… Buracos encharcados, ônibus lotados, lixos entulhados, velhos abandonados, carros empoeirados, telefones ocupados, amores separados e espaços desperdiçados, numa cidade que foi muito além de mim…

Quero dividir a minha coca-cola gelada, emprestar os meus chinelos novos, balançar a cabeça junto a alguém ouvindo uma música qualquer, jogar cartas de parceria, sentir o calor de outro braço encostando no meu. Mas ninguém bate a minha porta…

Levantei e ainda descalça, sai ajeitando meu pijama preferido e suado, abri a porta e me deparei com meus filhos sentados, brincando na calçada junto aos filhos de outros filhos, enquanto um sol de inverno ensaiava um sorriso sonolento.

Sentei-me ao lado dessas gerações desalinhadas e me lembrei do vento que havia batido a minha porta, que desatenta não havia percebido. Desatenta continuei sem contemplação ou planos, apenas assisti a vida passar sob a sola dos sapatos sem o prazer de degustá-la.

Bateram a minha porta, estava pensando em tudo que tem sido a existência humana…

Um vento forte destravou o trinco sem querer, como se esperasse alguém com hora marcada. Através de uma fresta espiei para o lado de fora através de um lençol pendurado no varal, vi muitas pessoas, cada uma a fazer algo diferente para a vida se encaixar melhor: lavavam-se os carros, cuidavam de cachorros, amamentavam filhos, corriam atrasados, e com tudo isso persistia um cheiro bom de pipoca no ar.

Acabou meu dia silenciosamente, sem tempestades, sem arrepios, sem cansaço, sem espera, apenas com uma brisa mansa que abria a minha porta me convidando a existir.

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14 comentários sobre “DO BREVE CAOS À BRISA-From brief chaos to breeze

  1. I do like this, could you help me please, I think this is Portugese language, and I will learn this so that I may read more fluently, but if it is not then I will have greater difficulty. ( I self learn) like music, like poetry, but not love, the common language of us all. (I thought Esperanto at first, but have ordered books to learn Portugese,) Forgive me clumsy attempts, and I am often wrong…

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  2. Te conheço a tantos anos… e desconheço. Sua tristeza e solidão me pesaram no peito e até agora sinto- me sufocada com tanta sensibilidade, com tanta sutileza, com tanta desatenção…… Como este mundo nos sufoca e ofusca….

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